Ponto Enredo

Batucada é (instrumentos usados no disco):
Alfaia, atabaque, baixo, baixo véio, baixo fretless, barril, bateria, bateria de 1ª, 2ª e 3ª, blateria, caixa, caixa de lata, caixa sem esteira, caixocalho, carreteiro, cavacão, cavaco, caxixi, chapa galvanizada, chocalho, congas, cowbell, cuíca, ganzá, guiro, guitarra, guitarra de 10 cordas, naipe de agogôs, naipe de ferros, naipe de pratos, pandeirada, pandeiro, pratos, quinto, reco-reco, repique, repique de anel, rocar, space reco, surdo, tamborins, triângulo, tumbadora, violão de 12 cordas, violão de aço, violoão wah-wah, violões, zabumba, zabumbatera, 101 takes de guitarra.

Destaque para a benção final de Léo Leobons, cantando e comandando o trio de batás, formado por ele, Léo Saad e João Gabriel, no Aro de Yemanjá que fecha o cd.

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FAIXA

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Release por Hugo Sukman

“Ponto enredo” poderia até ser classificado como um disco de samba - O disco de samba de Pedro Luís e A Parede - tal a profusão e a variedade com que o santo ritmo brasileiro é evocado neste quinto CD do conjunto carioca. Cantor e grupo, no entanto, modestamente preferem não falar o nome do santo gênero em vão. “Não somos um grupo de samba e venho notando que hoje em dia ele vem sendo utilizado como subterfúgio para classificar quem faz simplesmente música brasileira”, conceitua Pedro. “E ‘Ponto enredo’ é isso, um disco de música afro-brasileira ampla, que é característica da Parede, com muito samba e influência afro-cubana, e aquele peso rock’n’roll. Mas o fato é que, por diversos motivos, tenho composto muitos sambas e isso se reflete no repertório do disco”.

O samba, de fato, entra pela porta da frente de “Ponto enredo”. Senão ouçam o partido alto “Ela tem a beleza que nunca sonhei”, com direito a participação especial do mestre contemporâneo do gênero, Zeca Pagodinho, do violão de Paulão 7 Cordas (diretor musical dos shows de Zeca) e de Serginho Trombone. Notem como a parede percussiva da Parede (com inovadora pandeirada dando o molho) renova o samba sem descaracterizá-lo; como a guitarra elétrica do convidado Leo Saad convive bem com o cavaquinho de Pedro conduzindo a harmonia; como o baixo melódico e “pesado” de Mario Moura dialoga com o trombone, como enfim o partido alto de Pedro está gostoso e diferente relido pela Parede.

Na letra, evidentemente dedicada a uma musa que se relaciona com a tradição musical brasileira, o samba em primeiro lugar, Pedro revela nas entrelinhas o porquê de tanto samba no disco: “Contou-me lindas histórias/Cantou as belas memórias/De seu álbum de canções”.

O samba abre o disco. Ou melhor, um “Santo samba”, espécie de manifesto tanto na letra (“Vou cuidar de sambar/ Vou cantar pra valer/ O samba é um santo remédio/ Pra quem quer viver”), que invoca o gênero como motivo de festa e antídoto para os problemas do mundo, como na estética, desejada pela Parede nos seus já mais de dez anos de carreira, de um novo samba de pegada pop. O samba pop aliás, permeia as produções do grupo nos quatro CDs já lançados, mas também no trabalho paralelo de renovação do repertório carioca de carnaval feito no Monobloco , criado e conduzido pelos Integrantes da PLAP (Pedro Luís e A Parede).

No decorrer do disco, o samba reaparece com diversas roupagens. Vem como samba-de-roda em “Mandingo”, parceria de Pedro Luís com o baiano do Recôncavo Roque Ferreira, talvez o maior expoente atual do gênero, fornecedor de sucessos para Zeca Pagodinho, como “Água da minha sede” e “Samba pras moças”. Vem em forma de “samba de velho” (como define Pedro o samba tradicional) em “4 horizontes”, parceria com o produtor do disco, Lenine. E vem também como samba-funk em “Tem juízo mas não usa”, parceria de Pedro com o também pernambucano Lula Queiroga. Ou num samba calangueado como “Cantiga”, que Pedro sacou do poema de Manuel Bandeira. Ou ainda no samba-heavy (definição de Pedro) “Repúdio”, parceria com o letrista paulista Carlos Rennó, a letra sofisticada – toda com rimas paroxítonas – e direta.

São sambas, sim, mas com todo o molho da Parede. Notem o peso que A Parede dá a “Mandingo”, um samba-de-roda já diferentão em seu tom menor. “4 horizontes”, originalmente composto para o filme “Diabo a 4”, comédia de Alice Andrade, é um samba tradicional que também ganha peso percussivo e vocal de um Lenine com jeito nordestino. Em “Tem juízo mas não usa”, a Parede usa todo seu repertório percussivo e todos os efeitos e recursos eletrônicos de estúdio, delays, reprocessamentos, etc. sob a batuta do MiniStereo     (Rodrigo Campello e Junior Tostoi)

“Cantiga”, samba com influência do calango mineiro-baiano, como tantos de Martinho da Vila e Roque Ferreira, é um achado que segue a linha conceitual do disco, a do samba como antídoto para toda tristeza e falta de esperança, a despeito do sutil duplo sentido do poema de Bandeira (que usa o mar como metáfora da morte): “Quero ser feliz/ Nas ondas do mar/ Quero esquecer tudo/ Quero descansar”. A presença do candomblé (“Quem vem me beijar?/ Quero a estrela d’Alva/ Rainha do mar”) e o clima de samba-de-roda à beira-mar são outras características recorrentes.

O molho afro-cubano-brasileiro que caracteriza A Parede é protagonista da canção que dá título ao disco, “Ponto enredo”. Situada na longa tradição da relação entre música brasileira e as religiões de matriz africana, “Ponto enredo” está mais para umbanda na primeira parte, mais para candomblé na segunda. Notem a influência de um Noriel Vilela na primeira, de uma Clara Nunes na segunda. O baixo criativo de Mario Moura, lindo, melódico, dialoga à perfeição aqui com a bateria de C.A. Ferrari, a tumbadora de Celso Alvim, as congas de Sidon Silva, A Parede numa das gravações mais coesas do disco. “Ponto enredo”, inventiva já na proposta do novo subgênero musical proposto no título, foi composta por Pedro para uma encenação de “Sonhos de uma noite de verão”, de Shakespeare, pelo grupo teatral Nós do Morro, formado por atores da favela do Vidigal, no Rio de Janeiro, o que reforça ainda mais a vocação híbrida da música e de todo trabalho de Pedro Luís e A Parede.

O afro-cubano também influencia o samba “Cabô”, antiga parceria de Pedro com Zé Renato. Outro samba-de-roda de beira de praia, ganha contornos africanos nos vocais de inspiração juju music e no tratamento percussivo. Em faixa oculta anexada a esta, com a participação de Leo Leobons - mestre da linguagem dos tambores de Cuba, o disco é fechado com “Aro de Iemanjá”, domínio público oriundo do folclore cubano todo executado por batás, tambores sagrados da ilha do Caribe. “, Não há como trabalhar com percussão sem passar pela música afro-cubana e afro-brasileira”, diz Pedro.

Outros gêneros musicais fazem, no entanto, parte da pesquisa d’A Parede e de “Ponto enredo”. “Luz da nobreza” é uma linda folia de reis, mais um fruto da parceria de Pedro com  Zé Renato, que conta a participação especial de Roberta Sá, num belo e melodioso contracanto. “Animal” é uma canção blueseada, em parceria com Suely Mesquita, na qual A Parede trabalha com compassos 6/8 – sem fugir da sua linguagem percussiva de influência afro-cubana.

Produzido pelo parceiro de longa data, Lenine, o disco tem um formato musical poderoso e rigoroso, o(s) samba(s) relido(s) pelo filtro pop e afro-cubano de Pedro Luís e A Parede, com letras gregárias, que chamam o ouvinte para a festa, para repudiar o que há de ruim e celebrar a vida. Ou, como ensina “Santo samba”: “Vou cuidar de sambar/ Vou cantar pra valer/ O samba é um santo remédio/ Pra quem quer viver”.